07-12-2008
isto não é um poema.
poemas são um tédio,
eles te fazem
dormir.
Bukowski
Não sei, mas, desde alguma data que perdi a noção, toda essa coisa de vida poética tem me tirado do sério. O que acontece é que eu, toda esperta e onipotente, sou fragilizada nessa época do ano. Toda essa felicidade canina das pessoas andando na rua para ver o Natal que está chegando me incomoda de maneira tão profunda, como se estivessem ofendendo a minha mãe.
Não, não é mais um discurso de odeio o Natal. É uma questão de valores. Eu gosto do Natal, graças a ele eu tenho salário o ano inteiro. O que realmente me incomoda é que, como diz Caio “eu trocaria tudo para ser gorda, burra, alienada e feliz”, mas não sou e o conformismo alheio anda me ferindo.
O fato é que eu andava na avenida Paulista, como sempre em direção a Augusta, com mais 4 amigas. Discutiamos o que seria feito do Ano Novo, afinal, faltava pouco. As luzes de Natal acenderam por volta das 19h30. Começou o meu desespero, pois não tinha chegado nem ao Masp ainda. Em cinco minutos, aquilo que era um passeio casual, que faço quase todos os finais de semana da minha vida, se tornou o caos na terra, e a personificação do demonio naquelas luzes vermelhas (ok ok, exagerei). Mas o resultado foi que em minutos crianças eram atropeladas por carrinhos de batata frita, que eram assediados por velhas gordas com seus netos mais gordos ainda, esses que não queriam muito saber das batatas e sim dos algodões doces na esquina do Bradesco, uma antes do Opção. Conclusão, entrei em desespero e quis andar no vão central, que estava inacessivel porque os motoqueiros e aquelas familias de pai, mãe com menos de 20 anos e filho com mais de 3 em cima de uma mesma moto, também pararam para apreciar aqueles woltz disperdiçados. Enfim, invadi a pista de onibus e quase fui atropelada pelo onibus verde escuro (provavelmente o Pompéia). Abaixei a cabeça e andei a 60 km/h desesperada em direção ao meu destino final, ignorando solenemente o fato de que haviam mais quatro pessoas andando comigo (e consequentemente correndo risco de morte ao andar na faixa de onibus).
Bom, além do tumulto, do aquecimento global, sem contar o dano excessivo que estabelecimentos abertos fora do horário comercial causam ao meio ambiente (gasto de luz, disperdicio, excesso de lixo), o lixo jogado na rua, sem contar o estrago que as especiarias gastronomicas de rua fazem…
Essa é a minha visão perturbada do Natal.
Por outro lado: sinto falta da montagem da árvore no dia 8 de dezembro, e de desmontar lá pelo dia 15 quando eu voltava da viagem de férias. Sinto falta de ir a missa com a vovó, e de não poder comer rabanada antes da meia noite. Sinto falta das mesinhas de bar de metal, montadas no quintal, da época que meus primos não eram casados, de quando eu nem dirigia a palavra ao meu irmão. Sinto falta do Thiago correndo no meio das plantas comigo, mesmo que eu nem lembre hoje do rosto dele. Me dói não ver todos aqueles meus tios bananas, bando de velho barbado, discutindo por algum motivo idiota, onde no meio também se encontrava meu pai. Sinto falta da Pantera correndo pelo quintal e latindo para os fogos, do tio Jonas deitado no chão, do banheiro que era aberto em cima e que a tia Laura um dia jogou água gelada porque eu tava tomando banho quente no Rio de Janeiro. Falta da Tia Cilene, Claudia, Adriana, e da mamãe ajudando minha vó que só fazia reclamar. Não, isso que eu tenho hoje não é Natal. É data comercial que, graças a Deus (?) me sustenta.
Mataram o Natal.